Mediunidade na Ayahuasca: Quando Você Percebe que não Está Sozinho
Uma voz que não é sua, um movimento que você não decidiu, a sensação de alguém do lado. A ayahuasca amplia a percepção, e quem tem abertura mediúnica costuma descobrir isso na roda. Veja como reconhecer, o que atrai cada presença e como se preparar.
Por Andre Tauan
Neste texto 7 partes
A ayahuasca aflora a mediunidade?
Tem uma coisa que acontece com muita gente na cerimônia e quase ninguém avisa antes: em algum momento, você percebe uma presença que não é de nenhuma pessoa da roda. Pode ser uma voz que não parece a sua, um movimento do corpo que você não decidiu fazer, a sensação clara de que alguém está ali do lado, participando.
A pergunta que vem depois costuma ser essa: a ayahuasca aflora a mediunidade? Pelo que vejo nas cerimônias, ela não cria mediunidade em ninguém. Ela amplia a percepção, e quem já tem essa abertura, mesmo sem saber, passa a perceber.
Mediunidade é a capacidade de perceber o plano espiritual e de se comunicar com ele. Tem gente que nasce com isso à flor da pele. Tem gente em quem ela só aparece em certas condições, e a força da ayahuasca é uma dessas condições. Quando falo em força, estou falando desse estado de consciência ampliado que a bebida provoca.
"Os espíritos que estão participando ali daquela experiência, eles têm muito mais facilidade para mediunizar a pessoa que está no processo e se comunicar através desta pessoa. Mesmo que a pessoa não faça nenhuma ideia de que tinha esta abertura ao campo mediúnico."
Por que muita gente só descobre na cerimônia
No dia a dia, a atenção fica ocupada: trabalho, contas, celular, o pensamento que não para. Isso funciona como uma blindagem. A percepção do espiritual continua ali, só que abafada.
Na cerimônia, essa blindagem baixa. Já atendi pessoas que, fora dali, nunca tinham visto, ouvido ou sentido nada fora do comum e que, na roda, começaram a falar coisas que não sabiam, a se mover de um jeito que não era o delas, a chorar um choro que parecia de outra pessoa.
Sem ninguém explicar o que está acontecendo, isso assusta. Já vi gente achar que estava enlouquecendo, que a bebida estava fazendo mal ou que aquilo era coisa ruim. E, com medo, a pessoa se fecha no meio do processo.
"Grande parte das pessoas não tem uma visão acerca dos mecanismos da mediunidade de forma a poder dar um suporte àquele que está passando por esse tipo de experiência. E aí, basicamente, não sabe muito bem o que fazer."
É mediunidade ou é efeito da bebida?
Muita gente pergunta isso, e a resposta honesta é que as duas coisas acontecem juntas. A ayahuasca abre a porta. O que passa por ela depende de quem você é e de como você chegou.
Uma pista ajuda: repare se existe comunicação. Quando a presença parece querer dizer algo, passar um recado, mostrar alguma coisa que não vem da sua memória, isso tem jeito de mediunidade. Quando é uma emoção sua, uma lembrança sua, uma compreensão sobre a sua vida, provavelmente é a bebida trabalhando por dentro.
E tem um passo antes desse: separar o que você percebeu do nome que deram para isso. "Senti uma presença do meu lado direito" é o que aconteceu. "Então eu sou médium e preciso desenvolver" já é uma explicação, que pode ter vindo de você ou de alguém que estava perto. Deixe as duas coisas separadas por um tempo antes de decidir o que elas significam.
O que atrai uma presença boa ou ruim
Com os sentidos abertos, a espiritualidade em volta se aproxima, e ela não é uma coisa só. Tem presença que ajuda, acalma e ensina. Tem presença que confunde e pesa. O que decide qual delas chega mais perto é o seu estado por dentro.
"O que atrai um bom espírito? Bons pensamentos, bons sentimentos, oração. Maus espíritos? Maus pensamentos, maus sentimentos e a falta da oração."
Eu não vejo isso como moralismo. Muitas tradições que lidam com o invisível dizem a mesma coisa com palavras diferentes: você atrai aquilo com que está em sintonia. Raiva, medo e julgamento puxam para um lado. Gratidão, perdão e oração puxam para o outro.
Por isso me preparo antes de toda cerimônia que conduzo. Não é só tomar banho e vestir branco. É sentar, orar, pedir proteção e colocar o pensamento no que é bom. Não para fingir que a sombra não existe, mas para ter companhia boa quando ela aparecer.
Quem está do lado faz diferença
Ninguém deveria passar por uma abertura dessas sozinho. Quando alguém começa a falar, a se mexer ou a manifestar, muita gente acha que sabe o que fazer: impõe as mãos, reza alto, tenta "tirar" o espírito. Nem sempre é o certo. Às vezes a presença veio ajudar ou dar um recado, e a intervenção atrapalha. Outras vezes ela perturba de fato, e aí pede firmeza de quem sabe lidar sem agredir.
"Existem aqueles que pressupõem que sabem o que fazer. Mas, infelizmente, os seus pensamentos, às vezes, são mais místicos do que coerentes. E também o suporte à pessoa acaba não sendo tão adequado, tão bem orientado assim."
Nas cerimônias da casa, o Ministério do Auxílio acompanha cada pessoa a noite inteira. Quem trabalha nele já passou por isso, estudou e aprendeu na prática a acolher sem invadir e a orientar sem impor.
Como se preparar
- Ore do seu jeito. Não precisa de religião: uma prece sincera, um agradecimento, um pedido de proteção. Antes, durante e depois.
- Cuide do que entra na cabeça. Na véspera, evite discussão, notícia ruim e fofoca.
- Firme uma intenção. Algo como: "quero viver esta noite com verdade, aberto ao que vier, ligado ao que é bom".
- Escolha onde consagrar. Uma cerimônia conduzida por quem conhece o assunto, num lugar preparado, muda o que você vai encontrar. Conheça como são as cerimônias da casa.
- Integre depois. Se sentiu que algo abriu, converse, escreva, observe os dias seguintes.
Preparação não garante que nada difícil vai acontecer. Ela aumenta a chance de você estar bem acompanhado quando acontecer.
E se continuar depois da cerimônia?
Para algumas pessoas, a percepção continua aberta: sonhos diferentes, a sensação de presença em casa, a impressão de saber quando alguma coisa vai acontecer. Mediunidade não é doença, mas pede cuidado. É uma capacidade, e como toda capacidade pode ser bem ou mal conduzida.
O cuidado está em aprender a separar o que é seu do que é do outro, e em saber quando acolher e quando firmar o pé. Isso se aprende melhor com apoio. Para quem quer se aprofundar com orientação, existe a sessão particular.
Um lembrete importante: se o que você sente depois atrapalha dormir, trabalhar ou conviver, procure também um médico ou um psicólogo. Olhar para o lado espiritual não exclui cuidar da saúde.
Se quiser ler como outras pessoas viveram essa abertura, os depoimentos estão aqui.