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Mediunidade na Ayahuasca: Quando Você Percebe que não Está Sozinho

Uma voz que não é sua, um movimento que você não decidiu, a sensação de alguém do lado. A ayahuasca amplia a percepção, e quem tem abertura mediúnica costuma descobrir isso na roda. Veja como reconhecer, o que atrai cada presença e como se preparar.

Por Andre Tauan

6 minutos de leitura

Mulher jovem de pele clara, em pé durante um trabalho com ayahuasca, de olhos fechados e expressão serena, enquanto uma entidade espiritual feminina luminosa, com elementos de natureza e folhas, manif
Neste texto 7 partes
  1. A ayahuasca aflora a mediunidade?
  2. Por que muita gente só descobre na cerimônia
  3. É mediunidade ou é efeito da bebida?
  4. O que atrai uma presença boa ou ruim
  5. Quem está do lado faz diferença
  6. Como se preparar
  7. E se continuar depois da cerimônia?

A ayahuasca aflora a mediunidade?

Tem uma coisa que acontece com muita gente na cerimônia e quase ninguém avisa antes: em algum momento, você percebe uma presença que não é de nenhuma pessoa da roda. Pode ser uma voz que não parece a sua, um movimento do corpo que você não decidiu fazer, a sensação clara de que alguém está ali do lado, participando.

A pergunta que vem depois costuma ser essa: a ayahuasca aflora a mediunidade? Pelo que vejo nas cerimônias, ela não cria mediunidade em ninguém. Ela amplia a percepção, e quem já tem essa abertura, mesmo sem saber, passa a perceber.

Mediunidade é a capacidade de perceber o plano espiritual e de se comunicar com ele. Tem gente que nasce com isso à flor da pele. Tem gente em quem ela só aparece em certas condições, e a força da ayahuasca é uma dessas condições. Quando falo em força, estou falando desse estado de consciência ampliado que a bebida provoca.

"Os espíritos que estão participando ali daquela experiência, eles têm muito mais facilidade para mediunizar a pessoa que está no processo e se comunicar através desta pessoa. Mesmo que a pessoa não faça nenhuma ideia de que tinha esta abertura ao campo mediúnico."

Por que muita gente só descobre na cerimônia

No dia a dia, a atenção fica ocupada: trabalho, contas, celular, o pensamento que não para. Isso funciona como uma blindagem. A percepção do espiritual continua ali, só que abafada.

Na cerimônia, essa blindagem baixa. Já atendi pessoas que, fora dali, nunca tinham visto, ouvido ou sentido nada fora do comum e que, na roda, começaram a falar coisas que não sabiam, a se mover de um jeito que não era o delas, a chorar um choro que parecia de outra pessoa.

Sem ninguém explicar o que está acontecendo, isso assusta. Já vi gente achar que estava enlouquecendo, que a bebida estava fazendo mal ou que aquilo era coisa ruim. E, com medo, a pessoa se fecha no meio do processo.

"Grande parte das pessoas não tem uma visão acerca dos mecanismos da mediunidade de forma a poder dar um suporte àquele que está passando por esse tipo de experiência. E aí, basicamente, não sabe muito bem o que fazer."

É mediunidade ou é efeito da bebida?

Muita gente pergunta isso, e a resposta honesta é que as duas coisas acontecem juntas. A ayahuasca abre a porta. O que passa por ela depende de quem você é e de como você chegou.

Uma pista ajuda: repare se existe comunicação. Quando a presença parece querer dizer algo, passar um recado, mostrar alguma coisa que não vem da sua memória, isso tem jeito de mediunidade. Quando é uma emoção sua, uma lembrança sua, uma compreensão sobre a sua vida, provavelmente é a bebida trabalhando por dentro.

E tem um passo antes desse: separar o que você percebeu do nome que deram para isso. "Senti uma presença do meu lado direito" é o que aconteceu. "Então eu sou médium e preciso desenvolver" já é uma explicação, que pode ter vindo de você ou de alguém que estava perto. Deixe as duas coisas separadas por um tempo antes de decidir o que elas significam.

O que atrai uma presença boa ou ruim

Com os sentidos abertos, a espiritualidade em volta se aproxima, e ela não é uma coisa só. Tem presença que ajuda, acalma e ensina. Tem presença que confunde e pesa. O que decide qual delas chega mais perto é o seu estado por dentro.

"O que atrai um bom espírito? Bons pensamentos, bons sentimentos, oração. Maus espíritos? Maus pensamentos, maus sentimentos e a falta da oração."

Eu não vejo isso como moralismo. Muitas tradições que lidam com o invisível dizem a mesma coisa com palavras diferentes: você atrai aquilo com que está em sintonia. Raiva, medo e julgamento puxam para um lado. Gratidão, perdão e oração puxam para o outro.

Por isso me preparo antes de toda cerimônia que conduzo. Não é só tomar banho e vestir branco. É sentar, orar, pedir proteção e colocar o pensamento no que é bom. Não para fingir que a sombra não existe, mas para ter companhia boa quando ela aparecer.

Quem está do lado faz diferença

Ninguém deveria passar por uma abertura dessas sozinho. Quando alguém começa a falar, a se mexer ou a manifestar, muita gente acha que sabe o que fazer: impõe as mãos, reza alto, tenta "tirar" o espírito. Nem sempre é o certo. Às vezes a presença veio ajudar ou dar um recado, e a intervenção atrapalha. Outras vezes ela perturba de fato, e aí pede firmeza de quem sabe lidar sem agredir.

"Existem aqueles que pressupõem que sabem o que fazer. Mas, infelizmente, os seus pensamentos, às vezes, são mais místicos do que coerentes. E também o suporte à pessoa acaba não sendo tão adequado, tão bem orientado assim."

Nas cerimônias da casa, o Ministério do Auxílio acompanha cada pessoa a noite inteira. Quem trabalha nele já passou por isso, estudou e aprendeu na prática a acolher sem invadir e a orientar sem impor.

Como se preparar

  1. Ore do seu jeito. Não precisa de religião: uma prece sincera, um agradecimento, um pedido de proteção. Antes, durante e depois.
  2. Cuide do que entra na cabeça. Na véspera, evite discussão, notícia ruim e fofoca.
  3. Firme uma intenção. Algo como: "quero viver esta noite com verdade, aberto ao que vier, ligado ao que é bom".
  4. Escolha onde consagrar. Uma cerimônia conduzida por quem conhece o assunto, num lugar preparado, muda o que você vai encontrar. Conheça como são as cerimônias da casa.
  5. Integre depois. Se sentiu que algo abriu, converse, escreva, observe os dias seguintes.

Preparação não garante que nada difícil vai acontecer. Ela aumenta a chance de você estar bem acompanhado quando acontecer.

E se continuar depois da cerimônia?

Para algumas pessoas, a percepção continua aberta: sonhos diferentes, a sensação de presença em casa, a impressão de saber quando alguma coisa vai acontecer. Mediunidade não é doença, mas pede cuidado. É uma capacidade, e como toda capacidade pode ser bem ou mal conduzida.

O cuidado está em aprender a separar o que é seu do que é do outro, e em saber quando acolher e quando firmar o pé. Isso se aprende melhor com apoio. Para quem quer se aprofundar com orientação, existe a sessão particular.

Um lembrete importante: se o que você sente depois atrapalha dormir, trabalhar ou conviver, procure também um médico ou um psicólogo. Olhar para o lado espiritual não exclui cuidar da saúde.

Se quiser ler como outras pessoas viveram essa abertura, os depoimentos estão aqui.

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