Tem uma coisa que acontece com muita gente na cerimônia e ninguém avisa: de repente, você percebe que não está sozinho. Não é só a presença das outras pessoas ao redor. É algo além. Uma voz que não é sua, um movimento que vem de fora, uma sensação de que alguém está ali, participando com você. Isso é mais comum do que parece. E tem um nome: abertura mediúnica. Quando a gente consagra ayahuasca, os sentidos se ampliam. E junto com eles, a percepção do mundo espiritual. O que atrai boas presenças? O que abre porta para as que não ajudam? E, principalmente, como lidar com isso sem medo e com consciência?
O Que É Mediunidade e Por Que Ela Aparece na Ayahuasca?
Mediunidade não é dom só de quem trabalha em centro espírita. É uma capacidade natural do ser humano de perceber e interagir com o plano espiritual. Umas pessoas nascem com isso mais aflorado, outras têm uma predisposição que só se manifesta em determinadas condições. E a ayahuasca é uma dessas condições.
Quando a gente está dentro da força da medicina – o que eu chamo de "força" é justamente esse estado ampliado de consciência – nossos sentidos físicos e espirituais ficam mais aguçados. O que antes era ruído agora é presença. O que era invisível ganha forma, sensação, até voz.
"Os espíritos que estão participando ali daquela experiência, eles têm muito mais facilidade para mediunizar a pessoa que está no processo e se comunicar através desta pessoa. Mesmo que a pessoa não faça nenhuma ideia de que tinha esta abertura ao campo mediúnico."
Já atendi pessoas que, no dia a dia, são completamente "normais" – sem visões, sem ouvir vozes, sem sentir nada. Mas na cerimônia, começam a falar coisas que não sabiam, a se mover de um jeito que não é delas, a chorar um choro que não é só delas. É a mediunidade se manifestando.
Por Que Muitas Pessoas Não Sabem Que Têm Essa Abertura?
Fora da ayahuasca, nosso nível de consciência é mais fechado. A rotina, os pensamentos acelerados, as preocupações – tudo isso cria uma espécie de blindagem. A espiritualidade continua ali, mas a gente não percebe.
Na medicina, essa blindagem cai. E aí, quem tem predisposição mediúnica descobre. Mas descobre sem manual de instruções. E isso pode assustar.
Já vi gente achar que estava enlouquecendo. Ou que a medicina estava fazendo mal. Ou que aquilo era coisa do demônio. Nada disso. Era só a mediunidade desabrochando num ambiente que permitia.
O problema é que, sem orientação, a pessoa não sabe o que fazer com aquilo. Às vezes, ela mesma se fecha com medo, interrompe o processo e perde a chance de compreender uma parte importante de si. Outras vezes, quem está em volta não sabe acolher.
"Grande parte das pessoas não tem uma visão acerca dos mecanismos da mediunidade de forma a poder dar um suporte àquele que está passando por esse tipo de experiência. E aí, basicamente, não sabe muito bem o que fazer."
Por isso, em todas as nossas cerimônias e trabalhos, temos facilitadores preparados para acolher esses momentos. Não para controlar, mas para estar presente, firme e aberto.
Bons Espíritos, Maus Espíritos: O Que Atrai Cada Um?
Se os sentidos estão abertos, a espiritualidade ao redor se aproxima. E ela não é uma coisa só. Existem presenças que ajudam, que curam, que ensinam. E existem outras que perturbam, que confundem, que sugam.
O que determina o tipo de presença que vai se aproximar de você? O seu estado interior.
"O que atrai um bom espírito? Bons pensamentos, bons sentimentos, oração. Maus espíritos? Maus pensamentos, maus sentimentos e a falta da oração."
Isso não é moralismo. É lei espiritual. Toda tradição que lida com o invisível sabe disso. Você atrai aquilo que vibra.
Por isso, antes de qualquer cerimônia, eu me preparo. Não é só tomar um banho e vestir branco. É sentar, orar, colocar os pensamentos no que é bom, pedir proteção. Durante o trabalho, procuro manter meu coração inclinado para o que é positivo. Não para fingir que não existe sombra, mas para que, na hora que ela vier, eu tenha companhia que me sustente.
Como Saber se É Mediunidade ou Apenas Efeito da Medicina?
Essa é uma pergunta que muita gente faz. E a resposta não é simples, porque os dois acontecem juntos. A medicina abre a porta. O que entra por ela depende de quem você é e de como está.
Uma dica prática: observe se há comunicação. Se você sente uma presença que tenta falar algo, transmitir uma mensagem, mostrar algo que não é da sua memória pessoal – isso tem cara de mediunidade. Se é apenas uma emoção sua, um insight seu, uma lembrança sua, provavelmente é o trabalho da medicina no seu inconsciente.
Mas nem sempre dá pra separar. E nem precisa. O importante é acolher com respeito e, se possível, com ajuda de quem entende. Muitas pessoas, depois da cerimônia, começam a desenvolver essa percepção também no dia a dia. Sentem quando algo vai acontecer, percebem presenças em casa, têm sonhos diferentes. É a mediunidade que despertou e agora pede atenção.
O Papel do Facilitador e do Grupo no Acolhimento Mediúnico
Ninguém deveria passar por uma abertura mediúnica sozinho. E dentro da ayahuasca, isso é ainda mais sério.
Se a pessoa começa a manifestar, a falar, a se movimentar, o que fazer?
Muita gente acha que sabe: impõe as mãos, reza em voz alta, tenta "tirar" o espírito. Mas nem sempre isso é o certo. Às vezes, o espírito veio para ajudar, para trazer uma cura, para dar um recado. E a pessoa, sem saber, atrapalha.
Outras vezes, o espírito é realmente perturbador. E aí precisa de firmeza, de proteção, de quem saiba lidar sem agredir.
> "Existem aqueles que pressupõem que sabem o que fazer. Mas, infelizmente, os seus pensamentos, às vezes, são mais místicos do que coerentes. E também o suporte à pessoa acaba não sendo tão adequado, tão bem orientado assim."
Por isso, em todas as cerimônias que realizamos, temos facilitadores experientes. Pessoas que já passaram por isso, que estudaram, que aprenderam na prática a acolher sem invadir e a orientar sem impor.
A Importância da Oração e do Pensamento Elevado
Se tem uma coisa que eu posso recomendar para quem vai consagrar ayahuasca, é isso: ore. Antes, durante e depois.
Ore do seu jeito. Não precisa ser religioso. Pode ser um pensamento de gratidão, uma prece sincera, um pedido de proteção. O importante é criar uma conexão com o que é bom.
Seus pensamentos e sentimentos são como ímãs. Eles atraem a espiritualidade que está na mesma sintonia. Raiva, medo, julgamento – atraem o que é pesado. Amor, gratidão, perdão – atraem o que é leve.
Não se engane: tanto os bons quanto os maus espíritos estão em todo lugar. A diferença não é o espaço físico. É o seu espaço interior.
Como se Preparar para Uma Experiência com Abertura Mediúnica
Preparação não é garantia de que nada difícil vai acontecer. Mas é o que aumenta a chance de você estar bem acompanhado quando o difícil vier.
Algumas coisas que eu faço e recomendo:
1. Oração sincera – peça proteção, peça para ser guiado apenas pelo que é bom.
2. Pensamento elevado – antes da cerimônia, evite discussões, notícias ruins, fofoca. Alimente sua mente com o que alimenta sua alma.
3. Intenção firme – diga para si mesmo: "quero viver essa experiência com verdade, aberto ao que vier, mas conectado ao que é luz".
4. Escolha um lugar seguro – uma cerimônia conduzida por quem entende, num ambiente preparado, faz toda diferença. Conheça os rituais sagrados que realizamos e veja se ressoa com você.
5. Acolhimento pós-cerimônia – se você sentiu que algo se abriu, busque integrar. Converse com quem entende, escreva, observe seu dia a dia. Muitas vezes, a mediunidade que desperta pede um caminho, um desenvolvimento responsável. Oferecemos atendimentos particulares para quem quer se aprofundar nesse processo com orientação.
Mediunidade Não é Doença, Mas Pede Cuidado
Muita gente, ao sentir os primeiros sinais, se desespera. Acha que está ficando doente, que perdeu o controle, que a medicina fez mal. Não é assim.
Mediunidade é uma capacidade humana. Como qualquer capacidade, pode ser bem ou mal direcionada. Se você tem um corpo, pode atuar no mundo físico. Se tem mediunidade, pode atuar no mundo espiritual. É uma responsabilidade, não um castigo.
O cuidado está em não se deixar levar sem consciência. Em aprender a discernir o que é seu e o que é do outro. Em saber quando acolher e quando firmar o pé.
Tudo isso se aprende. E se aprende melhor em comunidade, com apoio, com troca. Por isso, além das cerimônias, temos espaços de conversa e integração. Porque a caminhada espiritual não se faz sozinho.
Se você já passou por isso ou tem curiosidade sobre o tema, te convido a ler os depoimentos de participantes que já viveram essa abertura e encontraram acolhimento.
A espiritualidade está mais perto do que a gente imagina. Na ayahuasca, ela fica ainda mais próxima. Que a gente saiba recebê-la com coração limpo e mente firme.
Conclusão
A mediunidade na ayahuasca não é um evento raro ou assustador – é parte do território que a gente pisa quando se abre para o sagrado. O que faz diferença é como a gente se apresenta: com oração, pensamento elevado e a companhia certa. Não dá pra controlar o que vem, mas dá pra escolher como receber. E, principalmente, dá pra aprender, com o tempo e com apoio, a discernir o que é cura e o que é confusão. Se você sentiu que algo se abriu em você, não se feche. Busque orientação, converse, integre. O caminho espiritual é feito de passos, e cada abertura é um convite para andar com mais consciência.
Perguntas Frequentes
Qualquer pessoa pode desenvolver mediunidade na ayahuasca?
Nem todo mundo, mas é mais comum do que parece. Quem já tem uma predisposição mediúnica, mesmo que nunca tenha manifestado, pode ter essa abertura amplificada dentro da força da medicina. A ayahuasca não cria a mediunidade, ela potencializa o que já existe.
Como saber se estou sendo influenciado por um bom ou mau espírito?
Pela qualidade do que sente. Se a presença traz paz, clareza, ensinamentos que edificam, é bom. Se traz confusão, medo, pensamentos pesados, é sinal de alerta. Por isso, durante a cerimônia, busco manter meu pensamento elevado e minha intenção firme – isso atrai boas companhias.
O que fazer se começar a manifestar mediunidade durante a cerimônia?
Respira e confia. Não tenta controlar à força, mas também não se entrega sem consciência. Se tiver um facilitador por perto, pode pedir acolhimento. O importante é não se assustar e lembrar que você está num espaço seguro, preparado para isso.
Depois da cerimônia, a mediunidade continua?
Para algumas pessoas, sim. A abertura pode permanecer, e a pessoa começa a perceber coisas no dia a dia que antes não percebia. É um chamado para desenvolver com responsabilidade. Procure orientação de quem entende do assunto para não se perder.
É perigoso ter uma experiência mediúnica na ayahuasca?
Pode ser desafiador se você estiver sozinho ou num ambiente sem suporte. Mas num espaço preparado, com facilitadores experientes, o risco diminui muito. O perigo maior é não saber o que está acontecendo e tentar resolver com misticismo vazio, sem acolhimento real.