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Ayahuasca

Quando o que atrapalha seu ritual é a preocupação com os outros

Você está lá, sentado na roda, e de repente percebe que já não está mais consigo. Sua atenção foi para o canto: alguém chorou, outro se mexeu, um terceiro pareceu desconfortável. E você, que foi buscar um encontro com sua própria alma, acabou se ocupando da jornada alheia. Isso já aconteceu com você? Acontece com muita gente.

É quase automático: a gente entra num ritual com uma intenção sincera, mas, aos poucos, os olhos e os ouvidos começam a se virar para os lados. O que será que ele está sentindo? Por que ela está tão quieta? Será que aquele incômodo é por minha causa? E, num piscar de olhos, a sua entrega já era. Você saiu do seu centro e se perdeu no que não é seu.

Mas isso não é um desvio qualquer. Muitas vezes, essa preocupação com o outro é uma forma de resistência. É a mente tentando escapar do que dói, do que é novo, do que pede silêncio. Fugir do próprio processo é mais fácil quando a gente se distrai com o processo alheio. Só que o preço é alto: a gente perde a chance de um encontro real com a gente mesmo.

A armadilha de olhar para os outros

O ritual é um espaço de interiorização. As medicinas sagradas, como a ayahuasca e o rapé, abrem portas para um mergulho fundo. Mas se você está o tempo todo antenado no que acontece à sua volta, essa porta fica entreaberta. Não adianta estar no lugar certo com a atenção no lugar errado.

A distração com o outro pode vir de um incômodo genuíno ou de um medo escondido. Um choro forte, um movimento brusco, um suspiro diferente. A mente logo cria uma história: "isso não está certo", "preciso ajudar", "e se estragar minha experiência?". Só que, na maioria das vezes, isso não é intuição – é fuga. A sua mente tagarela achou um assunto mais interessante do que encarar o seu próprio silêncio.

Uma das maiores queixas de quem viaja nesses estados é justamente a tagarelice mental. A mente analítica tenta assumir o controle, lista distrações, julga, compara. E, quando você resiste a isso, entra num diálogo interno que suga toda a concentração. Em vez de brigar, experimente concordar com ela e seguir adiante. Volte para o que realmente importa: a sua intenção.

Cada um no seu barco

Gosto de uma imagem simples: numa cerimônia, a gente entra no barco juntos. A sua intenção é o leme, e a medicina é o vento nas velas. Se você larga o leme para olhar o barco do vizinho, o vento vai te levar para qualquer lugar, menos para onde você queria ir. Cada um precisa segurar o seu leme. O que o outro sente é o barco dele. O que você sente é o seu. Ninguém pode navegar por você.

Isso não é egoísmo – é respeito. Respeito pelo seu próprio chamado e pelo chamado do outro. Quando você está inteiro na sua experiência, você fortalece o campo de todos, sem precisar interferir. É como um grupo de músicos: cada um cuida do seu instrumento, mas a música fica mais bonita quando todos estão afinados em si mesmos.

Comparar sua viagem com a dos outros também é uma cilada. Pode gerar inveja ou sensação de incapacidade. Talvez você ache que sua experiência é menos avançada ou menos bonita. Mas não existe medida aí. Cada alma tem seu jeito de se abrir, seu ritmo, suas imagens. O que vem para você é exatamente o que precisa vir agora. Respeite seu estilo único de viajar – e o do outro também.

O coração do seu processo

O que está em jogo nesse encontro é você. Seus medos, suas memórias, suas camadas mais íntimas. É ali que a transformação acontece. Quando você se distrai com o outro, está deixando de olhar para o que realmente pede atenção. É como adiar uma conversa importante consigo mesmo.

Lembre-se: seu corpo, sua mente e seu espírito são como um veículo que veio para ser cuidado. As medicinas ajudam a enxergar onde precisa de limpeza, de amor, de escuta. Mas você precisa estar presente, de olhos fechados e coração aberto, disposto a sentir o que vier. Não há separação entre você e o que precisa ser curado. E essa cura começa quando você assume o seu lugar no centro da própria vida.

Para se manter firme nesse propósito, três atitudes simples ajudam:

Defina sua intenção com clareza antes de começar. Quanto mais específico você for sobre o que deseja liberar ou compreender, mais fácil será retornar a ela quando a mente divagar.

Observe sem reagir. Sensações desconfortáveis vão aparecer. Demônios internos, medos, lembranças. Em vez de fugir ou se apavorar, apenas testemunhe. Como quem vê uma nuvem passar. Sustente o centro. Respire.

Leve leveza. A gente tende a levar a prática espiritual muito a sério, como se fosse uma prova. Mas os xamãs das tradições ancestrais riem muito. Eles sabem que a rigidez corta a criatividade e o fluxo. Permita-se ser mais leve. Ria de si mesmo quando se pegar distraído. E volte ao seu barco.

Quando a vontade de ajudar for verdadeira

Isso não significa ignorar o outro por completo. Há momentos em que o impulso de ajudar é genuíno e nasce de uma percepção sutil. Mas, na maioria das vezes, dentro do ritual, a melhor ajuda é não atrapalhar. O ambiente está seguro. Os guardiões e os condutores estão presentes. O melhor que você faz pelo outro é permitir que ele viva o dele, sem projetar suas ansiedades.

Se você se ocupa do processo alheio antes de se firmar no seu, pode até abrir buracos no seu próprio campo e ficar exposto a energias que não sabe manejar. A medicina exige responsabilidade. Quem se fortalece primeiro na sua própria caminhada, depois tem a firmeza para servir – se for o caso.

No rapé, por exemplo, cada sopro é um convite à interiorização. Se você está nervoso ou apressado, cheio de preocupações com a reação do outro, o ritual perde a força. Mas quando você se entrega com calma e confiança, o processo se completa. E, depois, você pode até aplicar o rapé em alguém com o respeito que nasce da vivência, não da teoria.

Volte para casa

Da próxima vez que você entrar num ritual, combine com você mesmo: "A minha atenção é minha. O meu processo é meu. Eu me autorizo a me voltar para dentro." Se os olhos quiserem se abrir, feche-os outra vez. Se a mente quiser julgar, respire e repita sua intenção. Se o incômodo com o outro surgir, lembre-se de que o barco dele está sendo guiado por forças que você desconhece. Confie.

Você não está sozinho – está cercado de irmãos – mas sua jornada é única. E quando cada um cuida do seu pedaço, a grande jornada coletiva fica mais bonita, mais verdadeira, mais inteira.

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