Tem uma coisa que ouço direto de quem chega na primeira cerimônia: 'Será que a Ayahuasca vai colocar alguma coisa ruim em mim?' Ou então, depois do trabalho: 'A medicina me deu um conteúdo pesado, não sei lidar.' E eu sempre respondo a mesma coisa: a Ayahuasca não te dá nada. Ela não é uma visitante que chega com bagagem. Ela é uma extratora. Ela puxa de dentro o que já é seu. E entender isso muda tudo — a forma como você vive a cerimônia, como se relaciona com o que sente e, principalmente, como se cura.
O que significa dizer que a Ayahuasca é uma extratora?
Quando a gente toma a medicina, parece que algo novo está acontecendo. Visões, emoções, sensações no corpo — tudo isso parece estranho, como se viesse de fora. Mas a verdade é que a Ayahuasca age como uma extratora: ela vai lá no fundo, onde a gente guardou, empurrou, escondeu, e traz à tona. É como uma planta que puxa os nutrientes da terra. Só que, no nosso caso, os 'nutrientes' são lembranças, dores, traumas, mas também alegrias esquecidas e forças que a gente nem sabia que tinha.
'Ela extrai de dentro aquilo que a gente tem. As boas experiências, as más experiências, são conteúdos próprios com os quais a gente tem que lidar.'
Não é a medicina que inventa. Não é ela que coloca. É ela que revela. Por isso que, às vezes, a gente chora sem saber por quê. Ou ri sem motivo. Ou sente um aperto no peito que não veio de lugar nenhum. Veio de dentro. Sempre esteve lá.
E é aqui que muda tudo.
Por que a culpa não existe na experiência com Ayahuasca?
Se a medicina só extrai o que já é nosso, então não há o que culpar. Nem a si mesmo, nem os outros. Mas é muito comum, principalmente em cerimônias em grupo, a gente sair achando que a culpa foi do vizinho. Que ele estava com uma energia pesada, que ele 'contaminou' a roda, que a gente ficou mal por causa dele.
Já vi isso acontecer dezenas de vezes. Alguém tem uma noite difícil, cheia de tensão, e no dia seguinte aponta: 'Fulano estava mal, peguei a energia dele'. E eu sempre pergunto: 'Mas por que você acha que pegou justamente a energia dele, e não a de outra pessoa?'
A resposta é simples: porque alguma coisa em você ressoou com o que estava nele. Não é invasão. É ressonância. É a medicina mostrando: 'Olha, isso que você viu nele também mora em você'.
'Quando isso acontece também é uma ressonância, ou seja, alguma coisa que também tem em mim ressoa, combina com aquilo que tem no outro. Então nunca é a culpa do outro.'
Lembro de uma cerimônia em que um participante passou a noite inteira angustiado, com sensação de sufoco. No outro dia, ele veio reclamar que o rapaz ao lado tinha trazido uma energia muito pesada de 'morte'. Mas quando a gente foi conversar, ele se lembrou que, há dois anos, perdeu o pai e não conseguiu chorar. A 'morte' que ele sentiu não era do outro — era a dele, não vivida, que finalmente encontrou uma brecha para vir à tona.
O que fazer quando o conteúdo que sobe é pesado?
A primeira coisa é não correr. Não tentar empurrar de volta. Porque se a medicina puxou, é porque já passou da hora de lidar com aquilo. A gente passa a vida empurrando: dores não choradas, raivas não expressas, medos não encarados. Eles vão se acumulando como camadas de terra. Até que a Ayahuasca, como uma raiz forte, revolve tudo.
Aí vem o desconforto. Vem a 'peia'. Vem a vontade de sair correndo, de pedir pra parar, de achar que a medicina é cruel. Mas ela não é cruel. Ela só está sendo precisa. Extraindo o que precisa ser visto para ser curado.
Então, quando o conteúdo pesado subir, a primeira coisa é respirar. Sentir no corpo onde aquilo aperta. Dar nome: 'Isso é medo', 'Isso é tristeza', 'Isso é raiva antiga'. E, principalmente, não julgar. Não é errado sentir. Não é feio. É humano.
Depois, se estiver em grupo, peça apoio. O facilitador está ali para isso. A roda está ali para isso. A medicina age, mas a gente segura junto. Por isso que a cerimônia coletiva é tão importante — ninguém precisa passar pelo processo sozinho.
E por fim, integre. O que veio à tona não é para ser esquecido de novo. É para ser trabalhado. Pode ser com um atendimento particular, com a hipnoterapia, com constelação, com conversa. O importante é dar um destino para aquilo que foi extraído. Senão, a terra remexida pode endurecer de novo.
As boas experiências também são extraídas?
Sim. E isso é algo lindo de perceber. A Ayahuasca não extrai só a sombra. Ela extrai a luz também. Às vezes, a gente tem uma experiência de profunda paz, de conexão com a natureza, de amor incondicional, e acha que a medicina 'deu' isso. Mas não. Ela só puxou de dentro o que já estava lá — só que estava soterrado debaixo de tanta dor, tanta pressa, tanta desconexão.
Eu já vi gente redescobrir a alegria de criança, a criatividade que achava que tinha perdido, a força para recomeçar. Tudo isso já estava nela. A medicina só escavou.
Por isso que a gente fala em 'trabalho' e não em 'viagem'. Não é sobre receber algo pronto. É sobre se dispor a cavar. A deixar a extratora fazer o serviço dela. E depois, colher o que vier.
Como se preparar para ser extraído?
Preparar-se para uma cerimônia é, antes de tudo, saber que você vai se encontrar. Não com algo novo, mas com você mesmo. Por isso as recomendações de dieta, de recolhimento, de silêncio nos dias anteriores não são regras vazias. São formas de afinar a terra para que a extração seja mais limpa.
Se você vai com expectativa de 'ter uma experiência boa', pode se frustrar. Porque às vezes o que precisa ser extraído não é 'bom' no sentido comum. É necessário. É cirúrgico.
'Tudo aquilo que a gente tem dentro da gente vem à tona para que a gente possa lidar com esse conteúdo, ressignificar, aprender, curar e encontrar formas novas, diferenciadas de poder enxergar essa experiência, esse conteúdo da gente.'
A preparação é sobre aceitar que o que vier, é seu. E que você é capaz de lidar. Porque se veio, é porque você já carregava. E se você já carregava, pode, agora, transformar.
O que fazer quando a gente adentra a energia de outra pessoa?
Volto ao ponto: não culpe. Não se feche. Não ache que o outro te 'atacou'. Pergunte-se: 'O que em mim está vibrando igual ao que está nele?' Pode ser algo que você reprimiu. Pode ser algo que você julga no outro e, na verdade, é seu. Pode ser uma ferida que você achava que já tinha curado.
A medicina, ao nos colocar em grupo, potencializa esses espelhos. A gente não está ali por acaso. A egrégora da cerimônia é formada por todos, e o que cada um traz é também para o outro. É um tecido. Se um fio puxa, todos sentem.
Numa roda recente, uma moça passou a noite chorando sem parar. Do lado dela, um rapaz que veio para 'ter uma experiência leve' começou a sentir uma tristeza profunda. Ele quase foi embora, achando que ela estava atrapalhando. Mas quando ele parou para sentir, percebeu que a tristeza era dele, de um luto não vivido. O choro dela só serviu de chave. A medicina usou a energia dela para extrair a dele.
Não é culpa de ninguém. É combinação. É cura coletiva acontecendo.
A extração continua depois da cerimônia?
Sim. E isso é crucial. Muita gente acha que, quando a cerimônia acaba, o trabalho acabou. Mas a extração continua nos dias seguintes. O conteúdo que veio à tona agora está mais perto da superfície. Ele vai pedir para ser olhado, integrado, ressignificado. Por isso que a integração pós-cerimônia é tão importante quanto o trabalho em si.
Se você não dá atenção, se volta correndo para a rotina, se engole de novo o que veio, a terra pode endurecer ainda mais. A medicina fez a parte dela. Agora é a sua.
Anote os sonhos. Observe o que te incomoda. O que te chama a atenção. O que te faz lembrar da cerimônia. Tudo isso é fio para puxar o novelo.
E se precisar de ajuda, peça. A gente está aqui para isso. Oferecemos sessões de integração justamente para dar suporte nesse momento em que a terra ainda está fofa.
A Ayahuasca é uma professora de si mesmo
No fim, o que a medicina faz é te apresentar a você. Sem véu. Sem filtro. Ela é a extratora que remove as camadas para que você veja o que realmente está lá. As belezas e as feridas. As forças e os medos. E quando você vê, pode escolher. Pode ressignificar. Pode curar.
Não é sobre a medicina. É sobre você. Sempre foi.
E quando a gente entende isso, a relação com a Ayahuasca muda. A gente para de tratá-la como uma deusa que dá ou tira, e começa a tratá-la como a aliada que ela é — que nos ajuda a acessar o que é nosso, para que a gente possa, finalmente, ser dono da própria história.
Conclusão
A Ayahuasca não traz nada de fora. Ela só puxa. Ela é uma extratora. E o que ela puxa é seu — sua memória, sua dor, sua alegria, sua potência. Quando a gente para de culpar a medicina ou o outro, o trabalho de verdade começa. Porque aí a gente olha para o que veio e diz: 'Isso é meu. E eu posso cuidar disso'. Cuidar, curar, ressignificar. Encontrar formas novas de enxergar o que sempre esteve ali. A medicina mostra o caminho. Mas quem anda é você.
Perguntas Frequentes
O que significa dizer que a Ayahuasca é uma extratora?
Significa que a medicina não traz nada de fora, não coloca nada em você. Ela age como uma ferramenta que puxa, que extrai de dentro da sua própria psique e do seu corpo tudo o que está guardado: memórias, emoções, traumas, mas também forças e alegrias. O que você sente numa cerimônia é conteúdo seu, não algo dado pela planta.
Por que sinto a energia de outras pessoas na cerimônia?
Isso acontece por ressonância. Quando você adentra a energia de alguém, é porque alguma coisa em você vibra na mesma frequência, combina com aquilo que está no outro. A medicina não te 'invade' com a energia alheia; ela revela que há um conteúdo seu que se conecta com o que o outro está trazendo. É um espelho, não uma contaminação.
A culpa é minha se tenho uma experiência difícil?
Não se trata de culpa. A experiência difícil é um conteúdo seu que veio à tona para ser visto e curado. A medicina não está te punindo, e você não errou por sentir dor. O que importa é como você vai lidar com isso: acolher, sentir, e depois integrar para que não precise ficar guardado de novo.
As boas experiências também são extraídas de dentro?
Sim, totalmente. A paz, a conexão, a alegria, o amor que você sente numa cerimônia também estavam em você, só que soterrados. A medicina extrai tanto a sombra quanto a luz. Por isso que a gente diz que ela não dá nada, só revela o que já é seu.
Como lidar com o que veio à tona depois da cerimônia?
O trabalho continua nos dias seguintes. Observe seus sentimentos, sonhos, incômodos. Anote, converse, busque integração. Se o conteúdo for muito pesado, procure apoio terapêutico ou uma sessão de integração. O importante é não empurrar de volta o que veio à superfície.