Ayahuasca e Traumas: Ela não Coloca Nada em Você, Traz à Tona
A ayahuasca não coloca nada em você: ela traz à tona o que já estava guardado, das lembranças difíceis às alegrias esquecidas. Veja por que isso acontece, como lidar quando o que sobe é pesado e até onde a bebida vai.
Por Andre Tauan
Neste texto 7 partes
A ayahuasca coloca algo ruim em mim?
Ouço essa pergunta de muita gente antes da primeira cerimônia. Depois dela, ouço outra parecida: "a medicina me trouxe um conteúdo pesado e eu não sei o que fazer com isso".
A minha resposta é a mesma para as duas: a ayahuasca não te dá nada. Ela não chega trazendo coisa de fora. Ela puxa de dentro o que já é seu, como uma raiz que busca na terra o que está lá embaixo.
"Ela extrai de dentro aquilo que a gente tem. As boas experiências, as más experiências, são conteúdos próprios com os quais a gente tem que lidar."
Entender isso muda o jeito de viver a cerimônia e o jeito de lidar com o que aparece nela.
Por que vem choro, raiva ou alegria sem motivo
Na força da ayahuasca, muita coisa parece vir de fora: uma imagem, uma emoção forte, um aperto no peito. Mas o que aparece costuma ser o que foi guardado, empurrado ou esquecido. Lembranças, dores, traumas. E também alegrias que ficaram soterradas e uma força que a pessoa nem sabia que tinha.
Por isso às vezes a gente chora sem saber por quê, ri sem motivo ou sente o corpo apertar sem ter pensado em nada. A emoção não veio de lugar nenhum. Veio de dentro, e já estava lá.
Quando o que sobe é um trauma, a lembrança pode voltar com a emoção junto, como se estivesse acontecendo de novo. Isso assusta. E é justamente por isso que o lugar e as pessoas em volta importam tanto.
Não é a energia do vizinho
Numa cerimônia em grupo, é comum alguém sair de uma noite difícil achando que a culpa foi de quem estava do lado: "ele estava com uma energia pesada, eu peguei a dele". Já ouvi isso muitas vezes, e sempre devolvo a pergunta: por que você pegou justamente a energia dele, e não a de outra pessoa da roda?
"Quando isso acontece também é uma ressonância, ou seja, alguma coisa que também tem em mim ressoa, combina com aquilo que tem no outro. Então nunca é a culpa do outro."
O choro de alguém do lado pode funcionar como uma chave e abrir em você uma tristeza que era sua. Em vez de perguntar "o que ele fez comigo?", experimente perguntar "o que em mim reagiu a isso?". A resposta pode ser algo que você guardou, algo que você julga no outro e também existe em você, ou uma ferida que parecia fechada.
Escrevi mais sobre o que fazer quando a atenção vai para os outros em Ayahuasca em grupo.
Quando o que sobe é pesado
A primeira coisa é não tentar empurrar de volta. Se a medicina trouxe para cima, aquilo já estava pedindo atenção. Depois:
- respire e procure no corpo onde aquilo aperta;
- dê nome ao que está sentindo: "isso é medo", "isso é tristeza", "isso é uma raiva antiga";
- não julgue o que aparece, porque sentir não é errado;
- se estiver difícil, peça ajuda a quem está cuidando da roda.
Aqui na casa, o Ministério do Auxílio acompanha cada pessoa a noite toda, para ninguém atravessar um momento assim sozinho. A limpeza pode vir como vômito, choro, suor ou bocejo, e a gente entende isso como parte do processo. Tem mais sobre isso em medo ou tristeza na cerimônia.
O que é bom também vem de dentro
A ayahuasca não traz à tona só a sombra. Às vezes vem uma paz funda, uma sensação de ligação com a natureza, um amor que não pede nada em troca. A pessoa costuma achar que a bebida "deu" isso. Pelo que vejo, ela só descobriu o que estava coberto por pressa, dor e cansaço.
Já vi gente reencontrar a alegria de criança, a vontade de criar, a força para recomeçar. Por isso a gente fala em trabalho, e não em viagem: ninguém recebe nada pronto, a pessoa se dispõe a cavar.
A ayahuasca não substitui tratamento
É importante dizer com clareza: a ayahuasca não é tratamento para trauma, depressão ou ansiedade, e não substitui acompanhamento médico ou psicológico. A casa segue uma frase: a medicina abre, mas não cura. Ela mostra o caminho, e a cura é obra de quem o percorre.
Algumas condições de saúde e alguns remédios não combinam com a bebida. Antes de participar, leia sobre contraindicações e remédios controlados, e passe pela conversa prévia com a equipe.
Nos dias seguintes
"Tudo aquilo que a gente tem dentro da gente vem à tona para que a gente possa lidar com esse conteúdo, ressignificar, aprender, curar e encontrar formas novas, diferenciadas de poder enxergar essa experiência, esse conteúdo da gente."
O trabalho não termina quando a cerimônia acaba. O que veio à tona fica mais perto da superfície por uns dias e costuma pedir atenção: um sonho, um incômodo, uma lembrança que volta. Se você engole tudo de novo e corre para a rotina, a terra remexida tende a endurecer outra vez.
Anote os sonhos. Repare no que te incomoda e no que te faz lembrar da noite. E, se precisar, peça ajuda. A sessão particular, com PNL, hipnoterapia e constelação familiar, também serve para dar um destino ao que veio à tona. Leia ainda sobre integração.