Silêncio na Ayahuasca: Quando Ficar Quieto é o Trabalho
Rapé a toda hora, conversa, levantar sem parar: na cerimônia de ayahuasca, o movimento às vezes serve para não sentir. Veja por que o silêncio incomoda tanto e como sustentar a quietude quando a vontade é levantar.
Por Andre Tauan
Neste texto 6 partes
Quando o movimento vira fuga
Quem já participou de algumas cerimônias conhece a cena: tem gente que não consegue ficar parada. Pede rapé a toda hora, levanta, dança sem parar, puxa conversa com quem está do lado. De fora, parece disposição. Na minha experiência, muitas vezes é fuga.
Quando vejo isso, a pergunta que me faço é: o que essa agitação está escondendo? Em muitos casos, a resposta é simples.
"A pessoa não quer encarar a si mesma."
Enquanto você se mexe, não precisa sentir. Enquanto fala, não escuta. Enquanto a atenção está no que acontece fora, o que está dentro fica onde estava.
Dez minutos de olhos fechados
Já fiz um teste algumas vezes com participantes assim. Peço que a pessoa fique em concentração: olhos fechados, sem música, sem levantar. Dez minutos. Parece pouco.
"Essa pessoa entra em agonia e desespero."
O corpo começa a coçar, a vontade de abrir os olhos fica forte, a cabeça dispara. Quando acaba, a pessoa levanta aliviada e volta para o movimento. Vejo esse padrão se repetir: o silêncio expõe, e o que ele expõe a gente quer evitar.
Dança que vem de dentro, agitação que foge
Não sou contra o movimento. Tem hora em que o corpo precisa expressar o que a medicina está trazendo, e isso é entrega. A diferença está na direção. O movimento da entrega nasce de dentro e costuma terminar sozinho. A agitação da fuga serve para não deixar nada chegar, e recomeça toda vez que o silêncio volta.
Um jeito prático de perceber a diferença: quando bater a vontade de levantar, pergunte a si mesmo se é o corpo pedindo movimento ou o incômodo de ficar quieto. Quando a cabeça começar a planejar o próximo rapé, repare no que você estava sentindo um segundo antes.
O que o silêncio traz para cima
O silêncio funciona como espelho. Quando o lado de fora se acalma, o que está dentro aparece: uma dor antiga, um medo, uma lembrança que foi empurrada para debaixo do tapete. Pode vir como imagem, como sensação no corpo, como choro, como riso, ou como nada por um tempo.
O desconforto não quer dizer que algo deu errado. Quer dizer que alguma coisa está subindo. É nesse ponto que o trabalho acontece, desde que você fique ali para ver.
Como sustentar a quietude
Quietude, aqui, não quer dizer ausência de som. A noite tem orações, flauta, pontos e ícaros. Quer dizer ficar no seu lugar, com a atenção voltada para dentro, enquanto a cerimônia acontece em volta.
"Estamos indo lá para poder dançar, curtir, escapar, ou estamos indo para uma concentração mais profunda, uma autocura?"
Quando o incômodo apertar, algumas coisas ajudam:
- respire mais devagar e conte dez respirações antes de decidir levantar;
- volte à intenção que você trouxe para a noite;
- se não estiver dando conta, chame quem está cuidando da roda em vez de sair andando;
- lembre que em volta tem outras pessoas atravessando a própria noite em silêncio, e a roda segura parte do peso.
Se mesmo assim ficar insustentável, mexa-se com consciência, sem perder o contato com o que está sentindo. Ir ao banheiro ou vomitar faz parte da noite. O que vale observar é o movimento que vira hábito para não sentir.
O mesmo padrão fora da cerimônia
A agitação que aparece na roda costuma aparecer em casa também: o celular conferido a cada minuto, a TV ligada para não ficar em silêncio, uma pressa que ninguém pediu. Quem aprende a ficar quieto dentro da cerimônia começa a conseguir ficar quieto fora dela.
E não parar tem um custo. Já vi gente ir a dez, vinte cerimônias e continuar no mesmo lugar, porque nunca ficou em silêncio tempo suficiente para olhar. Na próxima vez que bater a vontade de se mexer, experimente respirar e ficar mais um pouco.
Se quiser conversar sobre isso com calma, a sessão particular é um bom lugar. E se quiser praticar na roda, veja as próximas cerimônias.