Entrega na Ayahuasca: Por que Brigar com a Peia Deixa a Noite Mais Pesada
Boa parte do peso de uma noite de ayahuasca vem de brigar com o que aparece. Veja como a resistência se mostra no corpo, o que é se entregar na prática e por que isso muda o tamanho da peia.
Por Andre Tauan
Neste texto 6 partes
De onde vem o peso da noite
Quem já passou uma noite difícil na ayahuasca costuma lembrar do corpo: o enjoo que não passa, o aperto no peito, o frio, a vontade de que tudo acabe logo. Aqui na casa a gente chama esse momento de peia.
Nas cerimônias que conduzo, o que mais vejo deixar a peia pesada é a resistência. A pessoa está sentada na roda, mas por dentro está brigando com o que sente: tentando segurar, controlar, entender, evitar.
"Se nós estamos ali apegados às crenças, ideias, críticas, medos, memórias de dor, este apego não permite que eu me solte na direção de novas lições."
A ayahuasca raramente vem confirmar o que a gente já sabe. Ela costuma mostrar o que ainda não foi olhado. E para isso é preciso abrir espaço.
Como a resistência aparece
"Resistência" é uma palavra que diz pouco até a gente ver como ela acontece. Na roda, ela aparece de jeitos bem concretos:
- segurar o vômito até doer;
- abrir os olhos toda vez que uma imagem incomoda;
- repetir por dentro "isso precisa parar";
- discutir mentalmente com a lembrança que chegou;
- esperar uma experiência bonita e rejeitar qualquer outra.
Cada um desses movimentos gasta força e prende a pessoa no ponto mais desconfortável. O mal-estar, que poderia passar, tende a durar mais.
O que é se entregar, na prática
A entrega assusta porque quase todo mundo aprendeu que segurança é prever e segurar. Na cerimônia, a medicina pede outra coisa: confiar no processo, mesmo quando ele mostra a parte da gente que não gostamos de ver.
O treino começa antes de chegar. Olhe para o que você espera da noite e solte a ideia do que "deveria" acontecer. Durante a cerimônia, quando vier uma lembrança difícil, um enjoo ou um aperto, experimente três coisas:
- respire mais devagar e deixe a sensação ficar;
- se o corpo quiser vomitar, chorar ou tremer, deixe;
- troque a pergunta "como faço isso parar?" por "o que isso quer me mostrar?".
Você não precisa gostar do que aparece. Dá para acolher sem se agarrar. Muita gente percebe que, quando para de brigar, a peia muda de tamanho. Vomitar, chorar, suar, bocejar: aqui a gente entende tudo isso como limpeza, do corpo e do espírito.
A falta de entrega também explica outro relato comum, o de quem toma e não sente nada. Escrevi sobre isso em Tomei ayahuasca e não senti nada.
A noite repete a sua vida
"Tudo que acontece dentro da vivência com a Ayahuasca já está acontecendo na tua vida."
Essa é uma das coisas que mais aprendi com a medicina. O incômodo que aparece na roda não é inventado. Ele amplia alguma coisa que já acontece fora dali. Quem resiste a se abrir na cerimônia muitas vezes resiste a se abrir nas relações. Quem tenta controlar a experiência costuma tentar controlar a vida.
Visto assim, a cerimônia vira um lugar de aprender sobre si. Cada peia pode estar apontando para uma coisa que você vinha evitando olhar.
Entregar não é ficar à própria sorte
Soltar o controle só faz sentido num lugar preparado para isso. Numa cerimônia séria, alguém segura a estrutura enquanto você solta: quem conduz, quem canta, quem cuida. Aqui na casa, o Ministério do Auxílio acompanha cada pessoa a noite inteira, e ninguém atravessa a noite sozinho.
Por isso não recomendo consagrar ayahuasca sozinho. Sem ninguém cuidando, a resistência tende a crescer, e a experiência pode desorganizar em vez de ensinar. Explico melhor em por que não consagrar sozinho em casa.
Depois da cerimônia
A entrega continua quando a noite acaba. Nos dias seguintes, o corpo e a cabeça ainda estão assentando o que aconteceu, e uma compreensão que parecia clara ao amanhecer pode se perder na correria da segunda-feira.
Reserve momentos de silêncio, anote o que lembrar, converse sobre a noite. A conversa começa no café de integração, ao amanhecer, e pode continuar numa sessão particular. Mais sobre isso em integração.
A ayahuasca não pede que você seja perfeito. Pede que você esteja presente. Se quiser viver isso com cuidado, veja as próximas cerimônias.