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Cachimbo Sagrado: O que Significa e Como Rezar com a Fumaça

O cachimbo sagrado passa pela roda e muita gente pita e sopra sem pensar. Veja o que o fornilho, o pito e o fogo representam, por que cada sopro leva uma intenção e como rezar com a fumaça.

Por Andre Tauan

4 minutos de leitura

Cachimbo sagrado sendo passado em uma cerimônia, com fumaça subindo entre os participantes em um momento de oração.
Neste texto 7 partes
  1. O que é o cachimbo sagrado
  2. Fornilho, pito e fogo: o que cada parte representa
  3. A fumaça leva a intenção
  4. Soprar ou rezar: qual a diferença
  5. Como rezar com o cachimbo
  6. O risco do sopro no automático
  7. O cachimbo e as outras medicinas

O que é o cachimbo sagrado

Em muitas cerimônias existe um momento que passa quase despercebido. O cachimbo chega na mão, a pessoa pita, sopra e passa adiante sem pensar no que acabou de fazer. Eu já fiz isso, e demorei para entender o que estava soprando.

O cachimbo sagrado é um instrumento de reza usado há muito tempo por povos indígenas das Américas. Aqui na casa, ele está entre os instrumentos sagrados das cerimônias, ao lado do rapé e das medicinas.

"É um dos instrumentos, se não for o instrumento mais poderoso dentro das cerimônias espirituais."

Justamente por isso ele pede respeito. É ferramenta de reza, não enfeite nem hábito.

Fornilho, pito e fogo: o que cada parte representa

Olhando para o cachimbo, dá para ver nele uma imagem da criação. O fornilho, a parte onde se coloca o fumo, é o princípio feminino: acolhe, recebe, gera. O pito, por onde se puxa a fumaça, é o princípio masculino: dá direção e leva adiante. Entre os dois está o fogo, que é o espírito, a transformação, a vida.

"A união do masculino e do feminino causando a transmutação."

Por isso costumo dizer que o cachimbo é um altar que cabe na mão. Cada vez que você segura um, recebe um convite para juntar o que está separado em você: acolher o que costuma rejeitar e dar direção ao que costuma esconder.

A fumaça leva a intenção

Quando você acende e pita, a fumaça passa por você primeiro. Na tradição em que trabalho, isso é entendido como preparo: a fumaça limpa e alinha. Depois, quando você inverte o cachimbo e sopra, o que sai leva junto o que você estava pensando e sentindo naquele instante.

"Quando eu inverto e vou soprar, a fumaça que sai por aqui, ela sai com a intenção que eu ali coloquei."

Isso quer dizer que não existe sopro neutro. Quem sopra com raiva manda raiva. Quem sopra com medo manda medo. E se a cabeça estiver na briga de ontem ou na conta para pagar, é isso que a fumaça leva.

Soprar ou rezar: qual a diferença

Soprar sem intenção é só soltar fumaça. Soprar com intenção é rezar. A diferença está no que você firma antes de soltar: "isto é pela saúde da minha família", "isto é para clarear o meu caminho", "isto é gratidão por esta noite". Com a intenção firmada, a fumaça vira prece.

Quando não souber o que pedir, peça clareza: "me mostra o que eu preciso soprar". Isso já é uma intenção.

Como rezar com o cachimbo

É assim que eu faço, e é o que costumo orientar:

  1. antes de pegar o cachimbo, saiba o que você quer soprar, ou peça clareza;
  2. respire antes de pitar, porque quem pita tenso manda a tensão junto;
  3. pite com calma e firme a intenção enquanto a fumaça passa por você;
  4. sopre devagar, sem pressa, porque a pressa também vai na fumaça;
  5. agradeça e passe o cachimbo adiante com a mesma atenção com que o recebeu.

Quando o cachimbo passa pela roda, siga a orientação de quem está conduzindo. Cada casa tem o seu jeito.

O risco do sopro no automático

Depois de algumas cerimônias, bate a sensação de que já sabe. A pessoa pega, pita, sopra e devolve no piloto automático. E o automático não tem intenção, só hábito.

Eu já passei por isso. Soprei sem pensar, só porque era a hora de soprar, e depois vieram dias confusos, com sensação de vazio. Demorei para entender que o cachimbo funciona como espelho: quem chega disperso sopra dispersão, e quem chega presente sopra presença.

Eu reparo nisso até na fumaça. Quando estou agitado, ela sai fina, rápida, sem direção. Quando estou centrado, sai densa e lenta. Na próxima vez, repare na sua.

O cachimbo e as outras medicinas

O cachimbo não trabalha sozinho. Ele conversa com o rapé, com a ayahuasca e com a Jurema Sagrada, e cada uma tem o seu papel. Pelo que vejo, depois que a medicina abriu a porta, o cachimbo vem para firmar: o que foi limpo fica limpo, e agora se sopra o novo.

Dá para usar o cachimbo fora da cerimônia? Dá, com cuidado. Ele amplia a intenção, e quem usa sozinho precisa saber o que vai soprar e saber lidar com a resposta. Recomendo que as primeiras vezes sejam em grupo, com quem conduz há tempo. A mesma lógica vale para a ayahuasca, e explico o porquê em por que não consagrar sozinho em casa.

Depois de soprar, observe. A resposta nem sempre vem como a gente espera: às vezes vem como uma coincidência, às vezes como um desafio, às vezes como silêncio. Hoje, quando seguro um cachimbo, não tenho pressa. Respiro, firmo, agradeço e só então sopro.

Se quiser conhecer o cachimbo dentro de uma cerimônia, veja as próximas datas.

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