Cachimbo Sagrado: O que Significa e Como Rezar com a Fumaça
O cachimbo sagrado passa pela roda e muita gente pita e sopra sem pensar. Veja o que o fornilho, o pito e o fogo representam, por que cada sopro leva uma intenção e como rezar com a fumaça.
Por Andre Tauan
Neste texto 7 partes
O que é o cachimbo sagrado
Em muitas cerimônias existe um momento que passa quase despercebido. O cachimbo chega na mão, a pessoa pita, sopra e passa adiante sem pensar no que acabou de fazer. Eu já fiz isso, e demorei para entender o que estava soprando.
O cachimbo sagrado é um instrumento de reza usado há muito tempo por povos indígenas das Américas. Aqui na casa, ele está entre os instrumentos sagrados das cerimônias, ao lado do rapé e das medicinas.
"É um dos instrumentos, se não for o instrumento mais poderoso dentro das cerimônias espirituais."
Justamente por isso ele pede respeito. É ferramenta de reza, não enfeite nem hábito.
Fornilho, pito e fogo: o que cada parte representa
Olhando para o cachimbo, dá para ver nele uma imagem da criação. O fornilho, a parte onde se coloca o fumo, é o princípio feminino: acolhe, recebe, gera. O pito, por onde se puxa a fumaça, é o princípio masculino: dá direção e leva adiante. Entre os dois está o fogo, que é o espírito, a transformação, a vida.
"A união do masculino e do feminino causando a transmutação."
Por isso costumo dizer que o cachimbo é um altar que cabe na mão. Cada vez que você segura um, recebe um convite para juntar o que está separado em você: acolher o que costuma rejeitar e dar direção ao que costuma esconder.
A fumaça leva a intenção
Quando você acende e pita, a fumaça passa por você primeiro. Na tradição em que trabalho, isso é entendido como preparo: a fumaça limpa e alinha. Depois, quando você inverte o cachimbo e sopra, o que sai leva junto o que você estava pensando e sentindo naquele instante.
"Quando eu inverto e vou soprar, a fumaça que sai por aqui, ela sai com a intenção que eu ali coloquei."
Isso quer dizer que não existe sopro neutro. Quem sopra com raiva manda raiva. Quem sopra com medo manda medo. E se a cabeça estiver na briga de ontem ou na conta para pagar, é isso que a fumaça leva.
Soprar ou rezar: qual a diferença
Soprar sem intenção é só soltar fumaça. Soprar com intenção é rezar. A diferença está no que você firma antes de soltar: "isto é pela saúde da minha família", "isto é para clarear o meu caminho", "isto é gratidão por esta noite". Com a intenção firmada, a fumaça vira prece.
Quando não souber o que pedir, peça clareza: "me mostra o que eu preciso soprar". Isso já é uma intenção.
Como rezar com o cachimbo
É assim que eu faço, e é o que costumo orientar:
- antes de pegar o cachimbo, saiba o que você quer soprar, ou peça clareza;
- respire antes de pitar, porque quem pita tenso manda a tensão junto;
- pite com calma e firme a intenção enquanto a fumaça passa por você;
- sopre devagar, sem pressa, porque a pressa também vai na fumaça;
- agradeça e passe o cachimbo adiante com a mesma atenção com que o recebeu.
Quando o cachimbo passa pela roda, siga a orientação de quem está conduzindo. Cada casa tem o seu jeito.
O risco do sopro no automático
Depois de algumas cerimônias, bate a sensação de que já sabe. A pessoa pega, pita, sopra e devolve no piloto automático. E o automático não tem intenção, só hábito.
Eu já passei por isso. Soprei sem pensar, só porque era a hora de soprar, e depois vieram dias confusos, com sensação de vazio. Demorei para entender que o cachimbo funciona como espelho: quem chega disperso sopra dispersão, e quem chega presente sopra presença.
Eu reparo nisso até na fumaça. Quando estou agitado, ela sai fina, rápida, sem direção. Quando estou centrado, sai densa e lenta. Na próxima vez, repare na sua.
O cachimbo e as outras medicinas
O cachimbo não trabalha sozinho. Ele conversa com o rapé, com a ayahuasca e com a Jurema Sagrada, e cada uma tem o seu papel. Pelo que vejo, depois que a medicina abriu a porta, o cachimbo vem para firmar: o que foi limpo fica limpo, e agora se sopra o novo.
Dá para usar o cachimbo fora da cerimônia? Dá, com cuidado. Ele amplia a intenção, e quem usa sozinho precisa saber o que vai soprar e saber lidar com a resposta. Recomendo que as primeiras vezes sejam em grupo, com quem conduz há tempo. A mesma lógica vale para a ayahuasca, e explico o porquê em por que não consagrar sozinho em casa.
Depois de soprar, observe. A resposta nem sempre vem como a gente espera: às vezes vem como uma coincidência, às vezes como um desafio, às vezes como silêncio. Hoje, quando seguro um cachimbo, não tenho pressa. Respiro, firmo, agradeço e só então sopro.
Se quiser conhecer o cachimbo dentro de uma cerimônia, veja as próximas datas.